Depois de tantos dias entrega ao desânimo, esquecida por todos, até por ela mesma, cabelos virando “dred”, unhas roídas e cutículas por fazer, pernas cabeludas e sem os dourados pelos que sempre recebiam elogios, sobrancelhas horrorosas parecendo lobisomem, boca sem batom, pele sem viço e sem perfume, dentes sem sorriso “colgate!, cabeça sem planos, coração sem esperança, dia sem luminosidade, olhos sem luz. Há muito sem sair para ver o dia acontecer, ficar sob a luminosidade do sol e da lua.
Esquecida estava até mesmo de passear admirando o céu bordado de estrelas, sentir o calor do sol penetrar os poros ou a brisa suave que emana no amanhecer, coisas essas que ela adorava fazer todos os dias...
Há tanto tempo estava entregue, sem abrir as janelas, as portas, o coração, a mente, para deixar o ar da vida penetrar novamente no seu mundo, entregou-se ao abandono que a fez esquecer-se das cores e ficar no mundo preto e branco, esquecida de tudo, sem ouvir o barulho da vida e sequer sentir as batidas do próprio coração...
Depois de ter-se entregado ao infortúnio da desvalorização de tudo aquilo que eleva o ser, ela, naquela manhã abriu seus olhos sentindo algo diferente, acordou com um sufoco no peito, algo nela resolveu reagiu contra seu estado de amargura e mesmo enfraquecida começou a pentear os cabelos, encolhidos em “dred” e relutantes ao pente... Só depois de algumas horas entre vários intervalos, em que desanimada deitava quase se entregando ao destino mal traçado novamente, finalmente desembaraçado eles estavam... Ela havia se esquecido do quanto amava seus cabelos e notou que eles estavam mais longos e tão necessitados de cuidados...
Foi então tomar um banho, lavou-se, lavou-os... Assim ficou por muito tempo debaixo do chuveiro, sentindo o prazer da água a cair sob seu corpo, enquanto a água escorria seus cabelos deslizavam na sua pele e ela ia sentindo-se mais leve, como se estivesse também lavando a alma. Saiu do banho e foi se secando lentamente, quando de repente começou a se olhar no espelho a sua frente, nesse exato momento fogos parecem explodir-se dentro dela, os seus olhos se encontraram com os seus olhos. Uma sensação de doce prazer então tomou conta dela e de todo o seu corpo... Exaltada ela exclama:
Nossa!...
Que linda!...
Seu coração bateu forte e os seus olhos, como criança contente, para os seus brilharam agradecidos por ter se lembrado dela. Seus cabelos já secos e mais longos tão lindos estavam, há tanto tempo ela não os via assim... Novamente seu coração bateu forte e olhando ainda para o espelho fala alto:
Eu estou aqui, não morri, estou viva!... Não vou ficar entregue ao descaso do mundo, ao descaso de mim, não vai ser as minhas pendências que vão me conservar nessa escravidão, meu corpo está aqui, minha razão, meu coração!...
E olha-se nos olhos seus brilhando de amor pensando novamente em voz alta:
- A menina voltou, voltou para a vida, voltou por ter descoberto o quanto se ama e precisa cuidar desse amor.
"Se você não brilhar seus olhos nos seus olhos, dificilmente vai fazer brilhar outros olhos!"

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